Relatos de um diágolo entre “eus” durante a performance
Na árvore do ”vale da samambaia”, havia um nicho no tronco, onde eu podia ficar sentado em lótus, confortavelmente. Quando subi, logo me coloquei nesta posição. Sem programação prévia comecei a fazer uma espécie de prática aleatória, tocando nas memórias de minha experiência com yoga, meditação e sokushin. Quando me dei conta do que estava fazendo, interrompi o processo me dizendo:
– Mas isso não é o seu trabalho. Você não veio aqui fazer meditação ou yoga.
– Então o que é o trabalho?
– É principalmente um exercício de presença, percepção e atenção. Quando ativo minha consciência na respiração deixando-a um pouco mais profunda, sinto meu corpo expandir-se. Localizo regiões de tensão muscular e tento dissolvê-las. São técnicas. Sinto o corpo mais leve e ao mesmo tempo mais cheio. Experiências que ativo a partir dos anos de estudo do corpo.
– Isso faz parte do trabalho?
– Acho que sim. Elas estão no meu corpo.
– Mas como superar a técnica? Como estar presente? Como manter-me atento? Sinto-me meio? Quando?
– Estar é um exercício. Escapo, volto, escapo...
Num momento, me percebi com um canal de criatividade aberto. Via trabalhos inteiros se organizando em pensamentos: ações, formas, cores, lugares. Quando percebi, estava projetando ações, ao mesmo tempo que ativava memórias da infância. Tentei interromper:
– Este não é seu trabalho, não é terapia, nem momento de criação. A performance exige estar aqui, agora.
– Mas interromper é uma repressão a um estado. Será que bloquear estes pensamentos faz parte do trabalho?
– Acho que não. Pensamentos são presença.
– Então o que é o trabalho?
– É contraposição ao hábito de movimento diário. É sensibilização. É devir árvore.
– E o que mais?
...
Sigo me perguntando.
Seja na cidade ou na mata, depois que tramo os fios, paro em algum nicho, me acomodo e me pergunto: o que estou fazendo em cima da árvore?
Começou a performance.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Desejar ser - de Manuel de Barros
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.
Manoel de Barros
Livro sobre nada.
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.
Manoel de Barros
Livro sobre nada.
O corpo - ou - Como habitar uma árvore
Como habitar uma árvore por horas?
Entre sentado, de pé e deitado, todas as posições e nenhuma ao mesmo tempo.
As responsabilidades de apoio vão sendo distribuídas por diferentes partes. Busco adaptar-me as curvas e bifurcações, numa tentativa de aconchego e sujeição ao tronco. Amoldo meu corpo nos nichos de ocupação. Investigo uma distribuição equilibrada de tônus a cada movimento ou posição. Mapeio tensões localizadas e procuro equilibrá-las no limite de não cair; um acordo com a gravidade, meu corpo e a árvore buscando uma certa economia do esforço.
A situação de permanência e deslocamento neste habitat, exige novos padrões de corporalidade, mecanismos de inteligência e adaptação do movimento, gerando negociações estruturais.
Dedico uma atenção especial a respiração, deixando-a um pouco mais profunda, porém de forma orgânica, atento a seu fluxo livre, vivenciando o potencial de sensibilização a partir das trocas com o ar.
No encontro de peles - a minha e a da árvore - há uma sensibilização refinada neste órgão de superfície gerando informações e estímulos que modificam provisoriamente o corpo dilatado na ação. Também os cheiros e sons constituem fator de mobilidade das percepções.
Obviamente a ação na mata e na cidade recebe estímulos muito diferentes e consequentemente propicia vivencias corporais marcadas por caracteristicas de cada ambiente.
Em ambos, senti em alguns breves instantes, meu corpo desaparecer . Viro árvore. Ou viramos uma outra coisa. Experiências de intercorporeidade. Sensorialidades ativadas no trabalho de estar presente, manter-me sobre a árvore, sobre mim mesmo, posicionado no mundo.
É possível sentir o corpo árvore, a pulsão vegetal, que contem em si muitas informações sobre os movimentos internos, a estabilidade e o fluxo de energia.
Um campo aberto a múltiplas experiências de corporalidades.
Necessidades do corpo
A mobilidade, durante as oito horas de performance, é dada segundo necessidades.
Em geral as árvores que habito tem em média de três a cinco nichos de ocupação. Eles possibilitam a estabilidade de algumas posições.
O movimento e permanência são determinados tanto por estimulo do meio, tal como a necessidade de abrigar-me do sol nos períodos de mais intensidade, como do corpo, nas necessidades de rearranjos dos músculos e ossos, do pensamento e do estado emocional. Arrisco a dizer que também podem ser determinados por necessidades da árvore.
Uma outra questão é a alimentação. Eu poderia ficar em jejum,ou comer qualquer coisa, mas decido por comer frutas, em geral bananas e maçãs. Além de me sustentarem energeticamente, elas são elementos estéticos da performance.
Em geral tomo pouca água e não urino.
Na cidade, urinar durante a performance não seria possível sem descer, e nunca aconteceu. Na mata este é um fato facilmente administrado, mas nos dois ambientes, meu corpo parece entrar num processo de economia líquida e tal necessidade não aparece. Fico as oito horas sem urinar, o que em geral faço meia hora depois que desço.
Entre sentado, de pé e deitado, todas as posições e nenhuma ao mesmo tempo.
As responsabilidades de apoio vão sendo distribuídas por diferentes partes. Busco adaptar-me as curvas e bifurcações, numa tentativa de aconchego e sujeição ao tronco. Amoldo meu corpo nos nichos de ocupação. Investigo uma distribuição equilibrada de tônus a cada movimento ou posição. Mapeio tensões localizadas e procuro equilibrá-las no limite de não cair; um acordo com a gravidade, meu corpo e a árvore buscando uma certa economia do esforço.
A situação de permanência e deslocamento neste habitat, exige novos padrões de corporalidade, mecanismos de inteligência e adaptação do movimento, gerando negociações estruturais.
Dedico uma atenção especial a respiração, deixando-a um pouco mais profunda, porém de forma orgânica, atento a seu fluxo livre, vivenciando o potencial de sensibilização a partir das trocas com o ar.
No encontro de peles - a minha e a da árvore - há uma sensibilização refinada neste órgão de superfície gerando informações e estímulos que modificam provisoriamente o corpo dilatado na ação. Também os cheiros e sons constituem fator de mobilidade das percepções.
Obviamente a ação na mata e na cidade recebe estímulos muito diferentes e consequentemente propicia vivencias corporais marcadas por caracteristicas de cada ambiente.
Em ambos, senti em alguns breves instantes, meu corpo desaparecer . Viro árvore. Ou viramos uma outra coisa. Experiências de intercorporeidade. Sensorialidades ativadas no trabalho de estar presente, manter-me sobre a árvore, sobre mim mesmo, posicionado no mundo.
É possível sentir o corpo árvore, a pulsão vegetal, que contem em si muitas informações sobre os movimentos internos, a estabilidade e o fluxo de energia.
Um campo aberto a múltiplas experiências de corporalidades.
Necessidades do corpo
A mobilidade, durante as oito horas de performance, é dada segundo necessidades.
Em geral as árvores que habito tem em média de três a cinco nichos de ocupação. Eles possibilitam a estabilidade de algumas posições.
O movimento e permanência são determinados tanto por estimulo do meio, tal como a necessidade de abrigar-me do sol nos períodos de mais intensidade, como do corpo, nas necessidades de rearranjos dos músculos e ossos, do pensamento e do estado emocional. Arrisco a dizer que também podem ser determinados por necessidades da árvore.
Uma outra questão é a alimentação. Eu poderia ficar em jejum,ou comer qualquer coisa, mas decido por comer frutas, em geral bananas e maçãs. Além de me sustentarem energeticamente, elas são elementos estéticos da performance.
Em geral tomo pouca água e não urino.
Na cidade, urinar durante a performance não seria possível sem descer, e nunca aconteceu. Na mata este é um fato facilmente administrado, mas nos dois ambientes, meu corpo parece entrar num processo de economia líquida e tal necessidade não aparece. Fico as oito horas sem urinar, o que em geral faço meia hora depois que desço.
O sol
O sol me manteve aquecido naquele dia frio de outono na serra.
Recebia sua luz e calor todo o tempo.
Fui sentindo as diferenças na intensidade dos raios no passar do dia.
No meio da tarde sentia tão claramente momentos da diminuição na intensidade, que olhava o sol para ver se não havia sido coberto por nuvens. E não. Era percepção mesmo.
O afastamento.
Passagem.

foto: Domingos Guimaraens
“Só mora com intensidade aquele que já soube escolher-se.”
Gaston Bachellar, em A poética do Espaço
Recebia sua luz e calor todo o tempo.
Fui sentindo as diferenças na intensidade dos raios no passar do dia.
No meio da tarde sentia tão claramente momentos da diminuição na intensidade, que olhava o sol para ver se não havia sido coberto por nuvens. E não. Era percepção mesmo.
O afastamento.
Passagem.
foto: Domingos Guimaraens
“Só mora com intensidade aquele que já soube escolher-se.”
Gaston Bachellar, em A poética do Espaço
A árvore - especulações
Além das vivências práticas, ler “A vida secreta das plantas” (fragmentos num texto mais abaixo) aguçou minha imaginação e percepção em relação aos vegetais. O livro é uma interessante compilação de estudos científicos cujos métodos objetivaram comprovar que as plantas tem emoção, memória e reações muito elaboradas a estímulos diversos.
Nesta ação de parceria com as árvores, sinto cada vez mais o potencial em relacionar – me com elas. Estabelecer trocas, perceber e ser percebido.
Na permanência pressiono a árvore com meu peso e o tronco se enverga um pouco. Fico ali, no mesmo lugar por até mais de horas. Penso: terá ela uma estratégia dinâmica de harmonizar tensões? Será que as informações destas alterações chegam até suas raízes?
Terá ela reações à minha presença energética? Ao meus pensamentos e emoções?
Haverá alguma alteração em seu corpo por causa dos fios de malha branco enrolados?
Sempre tomo cuidado para não apertar os fios. Não quero machucar a pele da árvore.
Em uma delas, removi um parasita de tronco grosso que há anos devia estar sugando sua seiva. Foi uma forma de cuidado e carinho. Trocas.
Penso sobre nossas energias e permeabilidades. Considerando o campo eletromagnético como uma propriedade dos seres vivos, trocas físicas e energéticas se dão entre nossos corpos. Arrisco a dizer até que um novo campo é criado a partir da fusão dos nossos campos. E que esta atmosfera pode ser acessada por pessoas sensíveis a tais percepções.
Acredito que os vegetais guardam muitos segredos, memórias e sabedorias. Contêm em suas células, estórias do mundo. E a construção do conhecimento formal muitas vezes subestima estes valores, tão presente nas culturas populares, indígenas e determinadas comunidades rurais.
O contato atento, aberto e desprovido de pré conceitos, pode nos abrir caminhos sensoriais. Não falo de misticismo, mas de percepções físicas. Não há como negar a força de uma árvore e nem mesmo sua pulsão. Se levarmos em consideração apenas sua potência como bomba hidráulica, absorvendo dezenas de litros de água do solo por dia e liberando a maior parte na transpiração, já podemos considerá-la” um mecanismo fantástico”. Se pensarmos em sua habilidade em armazenar energia solar, então, é incrível. Seu corpo é adaptado as intempéries, suas raízes adentram os solos mais duros, suas copas se movimentam nas coordenadas espaciais, suas estratégias de sobrevivência são extremamente elaboradas.
Se observarmos os desenhos dos troncos e galhos, encontraremos um padrão básico na conformação da vida. As ramificações são as mesmas das veias, artérias e canais de fluidos corporais, da distribuição dos neurônios, da disposição dos rios, das trilhas, dos caminhos e estradas. Funções de fluxo, alimentação, escoamento. Padrões estéticos de eficiência da natureza.
Em meio a tantas complexidades, acredito nas trocas. No taiki, concepção oriental de comunicação pela energia, no respeito e reverência as formas de vida, na possibilidade de aprender com as plantas e no amor como nutriente.
Sei que aprendi coisas nestas experiências que ainda não consigo formular.
Sigo.
Nesta ação de parceria com as árvores, sinto cada vez mais o potencial em relacionar – me com elas. Estabelecer trocas, perceber e ser percebido.
Na permanência pressiono a árvore com meu peso e o tronco se enverga um pouco. Fico ali, no mesmo lugar por até mais de horas. Penso: terá ela uma estratégia dinâmica de harmonizar tensões? Será que as informações destas alterações chegam até suas raízes?
Terá ela reações à minha presença energética? Ao meus pensamentos e emoções?
Haverá alguma alteração em seu corpo por causa dos fios de malha branco enrolados?
Sempre tomo cuidado para não apertar os fios. Não quero machucar a pele da árvore.
Em uma delas, removi um parasita de tronco grosso que há anos devia estar sugando sua seiva. Foi uma forma de cuidado e carinho. Trocas.
Penso sobre nossas energias e permeabilidades. Considerando o campo eletromagnético como uma propriedade dos seres vivos, trocas físicas e energéticas se dão entre nossos corpos. Arrisco a dizer até que um novo campo é criado a partir da fusão dos nossos campos. E que esta atmosfera pode ser acessada por pessoas sensíveis a tais percepções.
Acredito que os vegetais guardam muitos segredos, memórias e sabedorias. Contêm em suas células, estórias do mundo. E a construção do conhecimento formal muitas vezes subestima estes valores, tão presente nas culturas populares, indígenas e determinadas comunidades rurais.
O contato atento, aberto e desprovido de pré conceitos, pode nos abrir caminhos sensoriais. Não falo de misticismo, mas de percepções físicas. Não há como negar a força de uma árvore e nem mesmo sua pulsão. Se levarmos em consideração apenas sua potência como bomba hidráulica, absorvendo dezenas de litros de água do solo por dia e liberando a maior parte na transpiração, já podemos considerá-la” um mecanismo fantástico”. Se pensarmos em sua habilidade em armazenar energia solar, então, é incrível. Seu corpo é adaptado as intempéries, suas raízes adentram os solos mais duros, suas copas se movimentam nas coordenadas espaciais, suas estratégias de sobrevivência são extremamente elaboradas.
Se observarmos os desenhos dos troncos e galhos, encontraremos um padrão básico na conformação da vida. As ramificações são as mesmas das veias, artérias e canais de fluidos corporais, da distribuição dos neurônios, da disposição dos rios, das trilhas, dos caminhos e estradas. Funções de fluxo, alimentação, escoamento. Padrões estéticos de eficiência da natureza.
Em meio a tantas complexidades, acredito nas trocas. No taiki, concepção oriental de comunicação pela energia, no respeito e reverência as formas de vida, na possibilidade de aprender com as plantas e no amor como nutriente.
Sei que aprendi coisas nestas experiências que ainda não consigo formular.
Sigo.
O Livro das Ignorãças - poema nº IX - Manuel de Barros
Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.
Manuel de Barros
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.
Manuel de Barros
O tempo
Meu devir árvore não passou de oito horas. Não deu tempo do mato crescer na boca, ou do musgo fixar-se na pele.
Mas foi um tempo de me perceber paisagem.
Acompanhei o vento esculpindo nuvens. O sol iluminando o dia.
A chuva molhando o oco. A árvore esculpindo o corpo.
Fluxos de seiva e sangue.
Sujeito às passagens.
Sujeitos das passagens.
Mas foi um tempo de me perceber paisagem.
Acompanhei o vento esculpindo nuvens. O sol iluminando o dia.
A chuva molhando o oco. A árvore esculpindo o corpo.
Fluxos de seiva e sangue.
Sujeito às passagens.
Sujeitos das passagens.
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